PSORIERJ /DV
O meu relato
O Umbigo
Eu voltei...
Voltei com a notícia que reapareceram as famosas casquinhas no umbigo, ô lugarzinho difícil sô. Aparecem e desaparecem de tempos em tempos. Meu médico já tinha me falado sobre este ´tipo´ de psoríase que ocorre nas dobras da pele, nos lugares quentes e úmidos.
Aliás, a psoríase tem tipos. Pode aparecer em todos os lugares da pele, em lugares nunca dantes imagináveis, se bem que em alguns ela é mais "popular", são lugares mais propensos a desenvolver as lesões, a doença. Ô desenvolvimento ruim, sô.
Não gosto de chamar essa coisa que eu tenho de... hum..."doença". Acho melhor pensar que essa palavrinha difícil de se falar, psoríase, seja uma "disfunção genética que causa a multiplicação acelerada e desordenada das células da pele quando desencadeada por um fator de estresse emocional".
Boa definição essa, não? Bem, e daí? Mas adianta alguma coisa ser boa a definição de uma coisa que não é boa? Por acaso a definição melhora as lesões, nosso estado de espírito? Talvez. Psoríase. Mas, que coisa...essa doença..
Mas como não falar de “doença”, se tenho que ir constantemente ao médico e à farmácia comprar medicamentos por causa da danada? Ficar horas tratando de várias partes do corpo, dedicar parte da minha vida a cuidar mais ainda de mim mesmo por causa de uma doença que eu não posso evitar, nem curar...
Como não me olhar mais no espelho, lavar as mãos, digitar essas palavras ou tocar meu instrumento sem olhar para as minhas próprias mãos e perceber que eu tenho uma coisa que incomoda, não só a mim mesmo, mas aos outros também? Minhas mãos... Ah! Mais um tipo de psoríase, com o formoso nome de palmo-plantar. Bonito, não?
Como sentir vontade de se coçar de repente e olhar para meu próprio umbigo, que antes não tinha nada, e perceber que agora "nasceram" lá umas casquinhas, de repente, que eu sei que não posso tirá-las, mas que no banho elas saem, vai arder e vão crescer de novo, e vão coçar de novo, e vão sair de novo, e vai arder de novo, que vai criar mais e mais casquinhas e tudo, tudo de novo, de novo?
Já disseram que se eu não tirar as casquinhas elas vão se acumular umas sobre as outras, se tornando pele morta, ficando cada vez mais difícil de tratar. Mas seu eu tirá-las, alivia, para de coçar, mas aí eu posso colocar algum remédio que vai ser mais bem absorvido pela pele, mas arde e depois terão mais casquinhas para impedir que o remédio penetre na pele, agora ferida... feridas... lesões..
Ah! Lembro-me de que tenho uma pomadinha ótima que se eu passar, amanhã logo, logo, elas estarão melhores e depois de amanhã, mais ainda, até o dia em que desaparecerão por completo do umbigo. Ah! Que bom...
Mas aí eu me lembro que li em algum lugar esta pomadinha "milagrosa" contém um produto químico chamado cortizona, que faz um mal danado para outros órgãos, e que mesmo melhorando, depois as "maleditas" casquinhas vão voltar, piores ainda!!! Piora a pele esse tal de cortizona, ataca a saúde devagar, é uma droga, até o dia que não faz mais efeito. Aí eu pergunto: E agora, o que fazer?
Ah! Mas aí olho para o meu umbigo.... E sei que não posso contar com ele. Sei que não posso esquecê-lo, que embora ele não sirva mais para nada, mas que um dia serviu, e muito.
Ah! Meu umbigo... Ainda bem que só me dou conta que ele existe quando coça. Bem, é melhor do que muitas outras pessoas que passam a vida inteira a olhar para o seu próprio umbigo... Que vaidade... Então, de que valeria a vaidade sem umbigo?
Então o umbigo serve para alguma coisa, pelo menos para alimentar a vaidade.
Aí eu coço a cabeça sem querer, como quem está em dúvida sobre alguma coisa, como quem está diante de um dilema, e me dou conta que eu também não posso nem coçar a cabeça.
Ah! Minha cabeça, meu peito, cheio de cascas, pele morta... Minhas unhas... São elas que coçam a minha cabeça e tiram as casquinhas, mas elas também estão afetadas, cheias de psoríase, são de um outro “tipo”, ungueal, que bonito não, mais um tipo dessa coisa em mim...
Também não posso isso, aquilo, nada, mais uma coisa que eu não posso por causa da doença. Porque tenho mais um outro tipo de psoríase, que dá no couro cabeludo, no peito também...Mas esse tipo eu não sei o nome científico. Que bom não saber.
Também agora não quero mais saber o nome do tipo que dá no joelho, no cotovelo, nas costas, na barriga, lá onde não se pode dizer...
Eu sei até dizer o nome de tipos de psoríase que eu tenho e dos tipos que eu não tenho, mas, será que vão descobrir até um novo tipo e dar o lindo nome de anquilosespondilitepneumohepatopancreohistoespasemohemoimunepsiscosistemicardioreumatofisioartropsoriática? .... Aí eu irei decobrir que não sei nada de alemão. É melhor tomar um choop na esquina..
Meu Deus... O que será de mim?
Mas será que isso tudo, além das cascas, não está na minha cabeça? Foi lá que apareceu primeiro, não foi? Onde tudo começou, na cabeça, umas casquinhas atrás da orelha que coçavam..
Será que tudo isso não é fruto da minha cabeça, da minha mente? Lá dentro, no meu espírito genético, na minha história orgânica, tem um gen que é um “fator determinante de predisposição para o desenvolvimento da psoríase que está intimamente relacionado com a minha emoção”. Olha que definição bonita de novo aparecendo, gente, como se fosse para justificar a “qualidade” dessa doença. Doença tem qualidade?
Mas será que não posso nem mais me emocionar? Mais uma coisa que não posso por causa dessa coisa... Ô, sô... E agora, também não posso mais sentir? Tenho que aprender a controlar também meus sentimentos, minhas emoções, ficar contido dentro do universo de mim mesmo e fingir que o mundo lá fora e os acontecimentos não interferem nas minhas sensações? Como, se as pessoas não ignoram você e a sua doença? Será que tenho que ignorar a minha própria existência?
Oh, meu umbigo... Foi através dele que eu me alimentei um dia. Quem sabe se um dia ainda descobrirão que é no cordão umbilical estará a cura definitiva da psoríase? Será que tudo não está no umbigo? Mas sem ele eu não existiria.
Não consigo vencer a psoríase... Como posso me iludir que um dia vou me curar de uma moléstia, doença, síndrome, disfunção, que eu sei que não tem cura? E saber que essa desilusão provoca um estresse emocional que provoca mais ainda a psoríase, que coça, coça, coça....
O que me resta é me conformar e procurar me manter calmo, consciente de que devo me tratar para conter a evolução da doença e evitar medicamentos e outros fatores que a piorem. Esquecer que essa coisa existe e que eu vou viver, me emocionar, sentir, ser feliz, com ela ou sem ela, independente de ser bonito ou feio, do que as pessoas pensam... O que importa é o que eu penso.
Vou esquecer a doença e nunca mais olhar para o meu próprio umbigo.
Bem...Até que um dia, um médico reumatologista enquanto me examinava (e eu quase que pelado), depois de me medir dos pés a cabeça, de me dobrar em dois, em três e em quatro, perguntou à médica dermatologista que o acompanhava, no hospital: - “Eu nunca tinha visto ninguém com psoríase no umbigo, você já tinha visto isso??? “